Desculpe, mas na minha geração isso podia

O recente incidente envolvendo o ator José Mayer trouxe mais à tona o debate recente acerca do feminismo ou das novas configurações do feminismo. As “brincadeiras” de mal gosto feitas pelo ator foram justificadas, por ele, como uma prática aceitável para a sua geração. Além disso, o ator diz ter reconhecido que aprendeu mais nesses dias do que nos seus 60 anos de vida. Sem querer acusar, nem tampouco, defender o ator, a sua justificativa pode parecer aceitável desde que não seja uma mera desculpa para os seus atos. Porém, cabem algumas considerações, a começar pela já desgastada atribuição de culpa ao conflito de gerações.

Parece razoável esperar que uma pessoa pública e, teoricamente esclarecida, deveria se empenhar em acompanhar as mudanças de valores de sua sociedade, principalmente em assunto tão delicado quanto o respeito à mulher. É estranho o argumento do “não saber que não podia” frente ao debate mais do que em evidência acerca das novas tendências do feminismo. A despeito disso, escrevo o texto de hoje para gerar uma reflexão, portanto, naqueles que se dizem de outras gerações.

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Existe uma crítica de parte da sociedade contra o “politicamente correto”. Como se o politicamente correto cerceasse a arte, particularmente, o humor. O politicamente correto estaria inibindo a espontaneidade e a naturalidade do brasileiro. Se esse for o preço a se pagar para que as pessoas não se sintam desrespeitadas, discriminadas, ostracisadas ou humilhadas pela sua condição de mulher, homossexual, negro, índio, pobre, anão, travesti, transexual, entre outras minorias, eu pago, não pechincho e nem peço troco. Artistas e humoristas que encontrem outras inspirações ou motes para as suas criações. A crueldade com o diferente é não justificável.

O argumento de que “é só uma brincadeira” simplesmente não cola frente à possibilidade de fazer, gratuitamente, que alguém se sinta pior do que se sentia antes da brincadeira. Se uma pessoa consegue não se ofender com as “brincadeiras” que lhe fazem, ótimo para ela. Entretanto, não podemos presumir que todas as pessoas não se ofendam e o pior, que não devam se ofender senão não possuem senso de humor. As pessoas têm todo o direito de se ofenderem e se defenderem dos desrespeitos, humilhações, discriminações e ostracismos que sofrem. Nesse sentido, a Vanessa teve todo o direito de processar o Rafael Bastos pelos seus comentários.

O bullying, termo tão na moda, exemplifica exatamente as “brincadeiras” às quais estou me referindo. Não devemos nos enganar, o bullying pode trazer graves consequências. Quando uma adolescente comete suicídio como no seriado 13 Reasons Why ou um adolescente pega uma arma e mata ou fere seus colegas, passamos a enxergar a gravidade desse tipo prática. O problema é que os adolescentes que reagem assim ao bullying que sofrem são tidos como desajustados e, no fim das contas, são culpabilizados pela reação que tiveram. Sempre aparecem pessoas dizendo que no tempo delas de escola, todo mundo fazia isso e ninguém morreu. A questão é que não sabemos se elas morreram por isso ou não, mas temos certeza de que muitas sequelas decorreram das humilhações sofridas na adolescência em decorrência do que hoje denominamos bullying.

Devemos sim nos preocuparmos com os sentimentos dos outros e não lhes fazer o que não gostaríamos que fizessem com a gente. Esse é um valor que deve ser respeitado e que não é prerrogativa dessa geração atual. Esse é valor representa, simplesmente, civilidade.   

BDF na Rede

         

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Dezembro, 2017

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