Então você tomou um pé na bunda? Parte IV – Hora de ser feliz novamente

Pé na bunda

Já, já você encontra alguém e fica feliz de novo

Se você quer ajudar alguém que está tentando se recuperar de um término, o comentário “já, já você encontra alguém e fica feliz de novo” é uma das últimas coisas que você deve dizer. Quem já passou por um término sofrido ou conviveu com alguém nessa situação sabe que uma das tendências é compartilhar com todo mundo o seu sofrimento. Dizem: “É nessas horas difíceis que vemos quais são nossos amigos de verdade”. Sem dúvida, as pessoas que estão sofrendo obtêm uma grande dose de atenção aos seus relatos queixosos. Isso não é necessariamente mau, entretanto, raras pessoas conseguem ouvir sem oferecerem seus conselhos de volta. Alguns podem até serem bons conselhos, como: “Você pode ser feliz sem ela(e)”; “Isso vai passar. É só ter paciência e seguir a própria vida”; “Preocupe-se mais com você mesmo(a) e menos com os outros”; “Tente se divertir” entre outros.

Mas por que o conselho “já, já você encontra alguém e fica feliz de novo” não seria um bom conselho? O problema é que esse conselho traz algumas implicações de ordem cultural que mais dificultam superar o rompimento do que ajudam, além de tornarem mais difícil o estabelecimento e a manutenção de novas relações. Vamos a elas, a primeira talvez seja uma interpretação equivocada do verso de Vinícius de Moraes, “é impossível ser feliz sozinho”. Vinícius fala que é impossível ser feliz “sozinho” e não “solteiro”. Que bom que a Mulher Melancia veio esclarecer esse ponto com outro verso “solteira sim, sozinha nunca”. Dificilmente seremos felizes sem amigos(as), familiares, colegas de trabalho/escola/faculdade/academia, animais de estimação, paqueras, parceiros(as) sexuais casuais etc. Parece haver um consenso, ao meu ver, equivocado, de que só podemos ser felizes caso as nossas vidas amorosas sejam bem-sucedidas e, entenda-se como bem-sucedidas as relações estáveis.

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Em primeiro lugar, podemos ser muito bem felizes sozinhos. Não precisamos, em termos práticos, de alguém para viajar, assistir um filme, ler um livro, ouvir música, tomar um vinho, saborear um bom prato e até, termos prazer sexual. É claro que, em boa parte das vezes, fazer todas essas coisas com uma companhia pode ser melhor, o que nem sempre é o caso. Além disso, um(a) namorada(o) ou esposa(o) não são as únicas companhias para fazer essas atividades. Podemos fazer praticamente todas elas, com amigos(as), familiares, colegas, parceiros(as) sexuais casuais e, até, estranhos(as). Ao mesmo tempo, o nosso cônjuge não é, necessariamente, a melhor companhia para fazermos todas essas coisas. Em segundo lugar, podemos ser infelizes nas nossas relações estáveis e não termos a companhia do nosso cônjuge para praticamente nada do que fazemos. Até o sexo que, provavelmente, seria a atividade mais íntima entre o casal, pode deixar de ser praticado pelo casal ou ser praticado com uma frequência mínima. Você não precisará se esforçar muito para lembrar de vários exemplos de casais assim.

Outra implicação importante do conselho acima é a de que você precisará atingir um requisito para ser feliz novamente: como diria a banda mineira J. Quest: “encontrar alguém que me dê amor”. A consequência é um grande conjunto de pessoas tentando se relacionar de maneira estável pela razão errada. Não temos que namorar ou casar para sermos felizes. Na realidade, devemos namorar ou casar com pessoas específicas que contribuam para que sejamos felizes na maior parte do tempo quanto fazemos todas aquelas coisas listadas no parágrafo anterior. A busca por um relacionamento estável deixa toda as deliciosas ocasiões de paquera demasiadamente estressantes, como quando fazíamos as provas do vestibular, por exemplo. Ao mesmo tempo, podemos iniciar relações com aquelas pessoas que nos quiseram, mas que não necessariamente vão contribuir para que sejamos mais felizes.

Resumindo, essa frase é um mal conselho porque não existe uma relação necessária entre ser feliz e estar em um relacionamento estável. Além disso, ela pode nos levar a tentar se relacionar pelas razões erradas, o que deixará tudo mais pesado e sem graça, fora a possibilidade de nos encontrarmos em uma relação com alguém que não amamos.

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