A chacina em Campinas e a causalidade em psicologia

Todos nós ficamos chocados com a chacina ocorrida em Campinas na virada de ano. Nos perguntamos o que levou uma pessoa a cometer tais atos. Tivemos algumas pistas das razões ao lermos a carta deixada por ela. O conteúdo da carta remete a uma série de temas polêmicos e atuais, num país e, talvez, num mundo polarizado entre pensamentos relacionados aos movimentos de esquerda e de direita. O problema é que, ao contrário de meados do século passado, onde os pensamentos de esquerda e de direita eram mais bem definidos, circunscrever posturas e atitudes como de direita ou de esquerda, na atualidade, é uma tarefa muito mais complexa do que parece. Desse modo, observamos atribuições de causalidade ao ocorrido de forma simplista e reducionista.

Em primeiro lugar, é importante reconhecer que os atos e as explicações dadas por nós aos nossos atos em si nem sempre não são correspondentes. Ou seja, nos enganamos com frequência acerca das razões que damos ao nosso comportamento. Isso ocorre porque o comportamento de justificar possui suas próprias causas e o comportamento justificado possui outras causas. Portanto, não necessariamente as justificativas dadas pelo autor da chacina são os reais motivos que o levaram a cometer esses atos. Sendo assim, a carta em si não é uma fonte confiável de dados para formular uma explicação dos comportamentos de matar e ferir aquelas pessoas. Em Psicologia, tentamos levantar os fatores que o levaram a escrever o que escreveu na carta e os fatores que o levaram a fazer o que fez na virada do ano.

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Eu utilizei fatores ao invés de causa para enfatizar que o comportamento é multideterminado, sendo influenciado por genética, aprendizagem e cultura. Duas linhas de explicação para os assassinatos e tentativas de assassinato se destacaram na mídia: De acordo com a primeira, os atos seriam fruto de uma cultura misógina e de intolerância associadas, de forma simplista, a um pensamento de direita. A outra explicação estaria mais vinculada a uma psicopatologia subjacente provavelmente despertada pelos conflitos advindos da separação e de uma suposta alienação parental.

Ambas as explicações são simplistas e incompletas, uma vez que se baseiam em dados escassos e pressupõem uma causa única. Ao mesmo tempo, podemos analisar o comportamento de explicar o comportamento do outro. Fica evidente que associar os homicídios e as tentativas de homicídios às ideias de direita é uma retórica que têm as suas próprias metas. A outra explicação, diminuindo o peso das ideias de direita e sugerindo uma psicopatologia subjacente, provavelmente tem metas contrárias. Ao mesmo tempo, a própria carta em si, sendo uma explicação precisa, ou não, para os atos cometidos, também é uma retórica que tem as próprias metas. Me parece que as metas que subjazem essas retóricas merecem uma apreciação. Elas decorrem de um momento de polarização que nós vivemos e que todo evento, simplório ou grave, serve de pretexto para nos posicionarmos.

Por mais que as ideias misóginas e de intolerância sejam perigosas e que nós psicólogos sejamos comprometidos eticamente em combatê-las, apontá-las como causa única do que aconteceu é leviano e impreciso. Ao mesmo tempo, se esquivar de discutir os efeitos dessas ideias culpando o indivíduo ou a sua doença mental também é. Talvez, nunca saberemos quais fatores genéticos, aprendidos e culturais o levaram a cometer tais atos. Para consegui-lo, precisaríamos de um exame muito mais profundo da história dessa pessoa e do que ela vinha vivenciando na atualidade. Como não podemos mais conversar com ela, essa missão é praticamente impossível.

De qualquer forma, o que justificaria retirar uma vida? Essa pessoa ter sido condenada por um crime? Uma mulher ser considerada “vadia”? A orientação sexual? A cor da pele? A posição política? Ser de outra espécie? Também cabe perguntar, se ser defensor dos direitos humanos é o mesmo que defender a injustiça ou a impunidade? Defender a liberdade de aborto ou a liberdade de eutanásia é o mesmo que defender homicídios? Daí resta a pergunta central desse texto: dependendo da resposta dada a uma das perguntas eu posso atribuir um rótulo à pessoa e, com base nele, prever com precisão às respostas a todas as outras? É claro que não. Nós, humanos, tendemos a agrupar o mundo em categorias e, com base nelas, conferir uma inteligibilidade à natureza caótica. Mas as categorias são meros resumos imprecisos e lhes conferir status causal é impreciso, simplista e reducionista.

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Dezembro, 2017

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